Começou a Semana de Cinema Brasileiro em Cuba


O ator Rodrigo Santoro marca com sua presença a noite de estréia
 
Por: Antón Vélez Bichkov (Dos meus arquivos...)


Havana, 10 set (acn) Com a presença do embaixador do Brasil em Cuba, Exmo.sr. Bernardo Pericás Netto, membros do corpo diplomático credenciado em Cuba, personalidades da cultura nacional, convidados e associados do "Projeto 23" foi inaugurada no passado sábado (08/09/07) a Semana de Cinema Brasileiro em Havana.
O ciclo cinematográfico, que prevê a apresentação de oito filmes da mais recente produção, além de quatro documentários, foi aberto com a projeção da sensível "O ano em que meus pais saíram de férias", do diretor Cao Hamburguer, que relata as vivências de um menino, cujos pais são perseguidos pela ditadura e a partir disso tem de coexistir com a comunidade judaica do bairro paulista de Bom Retiro.

Entre as euforias do Mundial de Futebol de 70 e as complexas relações do rapaz com o emigrante hebreu Shlomo e sua tradicionalista comunidade, o longa consegue traduzir de maneira exata e na proporção certa a experiência de uma época complexa, em que o governo militar visando disfarçar a realidade atroz utiliza, sem o menor pudor, a grande paixão do brasileiro: o futebol.

Contrário a qualquer idéia de descaso com a 'verdade histórica' ou falta de compromisso social, o filme, consegue de maneira sutil expor aquele clima ambivalente imposto pelo matrimônio silêncio-exaltação patrocinado até seu mais íntimo aspecto pela ditadura.

Rumores e temores se diluem no mar de endorfina - são "90 milhões em ação, ligados na mesma emoção" com uma apetência legítima, mas com catalisador duvidoso: um nacionalismo exacerbado, não exatamente pelo natural amor à Pátria, mas por uma ideologia ufanista, que beirava com o chauvinismo e que poucas vezes respeitava o que há de autêntico e importante num povo.

Em seu discurso de abertura, que foi antecedido pelas palavras inaugurais do crítico Frank Padrón, o Sr. Pericás salientou o reconhecimento do governo brasileiro, particularmente de sua missão diplomática ao Instituto Cubano de Artes e Indústria Cinematográficas
(ICAIC) e em especial a Dolores Calviño, vice-diretora da Cinemateca de Cuba, por abrirem o espaço para o cinema daquela nação sul-americana ao espectador nacional.


Em outro momento de sua alocução o diplomata brasileiro, agradeceu o apóio recebido do Secretário do Audiovisual de seu país, o cineasta Orlando Senna, outrora diretor da Escola de Cinema, Rádio e TV de San Antonio de los Baños e sua esposa Conceição na hora da confecção da mostra. Conceição, que participa com o documentário "Brilhante", é uma velha conhecida dos cubanos. No final dos 80, seu programa "Janela ao sul", com notável sucesso aproximou a população cubana da cultura do Brasil apresentando entrevistas e clipes de grande número de artistas que se tornaram populares na ilha, sobretudo, pelo sucesso das telenovelas que naquela época despontaram nas telinhas do país.


Também no embalo de um sucesso noveleiro, foi apresentado no segundo dia da exibição o marcante "Zuzu Angel", que contou em seu elenco com alguns dos protagonistas de "Cabocla" e "Senhora do destino".


Patrícia Pillar demonstrou sua inegável qualidade histriônica na pele da figurinista Zuzu Angel, que procura seu filho vítima da repressão do regime militar. Apesar da conexão pelo marco histórico, os dois 'pratos fortes' da mostra têm tons e intencionalidades diversas, fato, que no entanto, não resta, mas soma.


Se primeiro se constrói a partir da perspectiva de um personagem infantil (algo bastante usual nos últimos tempos) e se desenha em cores mais tênues e repousadas, o segundo mostra a ferocidade do regime do general Emílio Garrastazu Médici em todo seu paradoxal 'esplendor', revivendo as dores e peripécias de uma mãe, que muda sua visão conivente e relativamente acomodada, pela mais firme convicção que está vivendo num país cheio de injustiças e de bárbaros crimes.


Aproveitando todo o know-how da mais clássica cinematografia hollywoodiana (começo de impacto, ritmo acelerado, bom nível de produção e o um uso muito adequado do suspense), o filme transita de maneira harmônica por várias etapas da relação entre a Zuzu, cuja carreira in crescendo a levou inclusive aos Estados Unidos, e seu filho, Stuart Angel Jones, um rapaz que segue o trilho de muitos dos jovens de sua geração e classe: a resistência ativa contra o regime.


No entanto, não é na precisa e muito efetiva dramaturgia, que sabe jogar bem com os tempos presentes e passados, sem cair num caos narrativo, que reside o maior mérito do filme, mas na forma em que aparece desconstruída aos poucos a intensa e profundamente interior metamorfose, que leva a Zuzu de um estado de consciência a outro e começa a se traduzir em ações concretas e reconhecíveis com o transcurso da trama. Ou seja, a transformação não é meramente epidérmica e ancorada num conflito pessoal, mas é justamente esse conflito de índole particular, que a leva a uma outra dimensão de seu pensamento...


Infelizmente nunca saberemos se esta visão haveria de transcender e se realmente a dor a levaria a outro patamar ideológico, pois a morte, comprovadamente aleivosa de que foi vítima, truncou toda possibilidade de desenvolvimento posterior. Ainda assim, continua a ser, em nosso critério, uma leitura válida.


Momento emocionante, sem dúvida, foi a inserção no final da trama de duas peças do superlativo Chico Buarque. A primeira foi o clássico "Apesar de você", que num jogo interessante, mesmo que um pouco óbvio, se resiste a ser desligado do gravador do carro em que Zuzu sofre o 'acidente' quando um dos executores do crime tenta faze-lo. E a segunda, como parte da despedida o tema "Angélica", criado especialmente pelo compositor, que também sofreu as amarguras das perseguições políticas e a quem Zuzu deixa uma espécie testamento-declaração em que se revela o envolvimento dos militares em sua morte.


Outro fato interessante é que seja numa produção de duas poderosas do mundo das comunicações, como a Warner Brothers e a Globo Filmes, que apareça sem enfeites demasiado torpes toda a crueza do regime ditatorial brasileiro.


A propósito, a noite de abertura da Semana... contou com a presença, ainda que sutil, do astro Rodrigo Santoro, que contrário a uma previsível doença de estrelato, se mostrou como uma pessoa singela, acessível e com grande sede pelo autêntico.


Ao ser perguntado pela ACN Santoro declarou sentir-se "encantado" com a ilha, que não conhecia e que visita de passagem. Aliás, confessou não conhecer muito de cinema cubano, porém, que já havia recebido de presente vários dos mais recentes filmes de produção nacional entre eles "Páginas del Diario de Mauricio", do diretor Manuel González.


O ator, conhecido em Cuba apenas por sua obra cinematográfica - nenhuma de suas novelas foi exibida ainda pela telinha cubana - disse que estava muito satisfeito pela acolhida propiciada a ele pelo ICAIC e ao falar de um dos seus personagens de maior impacto (o transexual de"Carandiru") concordou que era precisa uma certa dose de coragem para encarar um papel ainda complexo para nosso tipo de sociedade.


Como parte das atividades pelos 185 anos de independência brasileira as autoridades culturais cubanas em coordenação com o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) através de sua embaixada em Havana, conceberam um programa rico em propostas que inclui além desta Semana, programação relativa ao Brasil na Televisão Cubana, um show de MPB no teatro Amadeo Roldán, cuja data e protagonista não foram revelados e uma esplêndida temporada de teatro, que com notável sucesso foi encerrada na noite da passada quinta-feira.

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